11/10/2009

o desconcerto da partida

Nos últimos dias já estava acostumada a ligar pra ela e ouvir pouco a sua voz - logo a voz, sua impressão digital nesse mundo. Até bem pouco tempo, não era assim. Eu ligava e ficava impressionada porque mesmo depois de uma cirurgia num hospital distante em Frankfurt, na Alemanha, sua voz soava forte, ligada no mundo. Era ela quem me dava força, queria saber do Brasil, de Salvador. Ela já não estava bem, mas queria saber se todos estavam bem, Marcelo, Andréia, Hans, Adriana, Paulinha, Vladi, Xanda, Beto, Débora, Goli, Pepito.

Há cerca de um mês fui vê-la, já não tão distante, aqui do lado, em Belo Horizonte. De perto pude perceber o quanto ela já estava distante, mais do que quando estava num hospital em Frankfurt. Ela já estava indo embora, mas não queria ir, embora já soubesse que teria quer ir. Ela e seu corpo eram só desacordo. Viver doía. Full time.

Lá em Belo Horizonte sentávamos no sofá da sala, eu, ela e Zélia, de mãos dadas, como três velhinhas, esperando a única e absoluta certeza que a vida nos reserva: a morte. Enquanto esperávamos, nos distraíamos e distraíamos a morte também – é justamente no intervalo dessa espera que a vida acontece. E tomamos vinho (eu e Zélia, ela não), chás, falamos da vida, de canções, filmes, trocamos confidências. E bebíamos mais chás e mais vinho.

Eu, Rosanna & Zélia. Éramos quatro mulheres. Sim, quatro, porque a Morte já estava ali entre a gente, elegante, gentil, paciente, esperando. Mas a Morte não deveria estar ali entre a gente, nós não a havíamos convidado. Pensei assim até perceber que, na verdade, foi ela, a Morte, quem nos convidou para aquele encontro. E era só enquanto Ela estivesse por ali, gentil, esperando, que haveria espaço para mais e mais sonhos: um novo disco, novas canções, um mergulho no mar e, quem sabe, uma vacina, a cura, a cura... Que mundo estranho esse, era a presença e não a ausência da Morte que ainda a mantinha entre nós.

No dia que eu vim embora, nos abraçamos. Nunca pensei um dia acariciar a cara viva da Morte. Mas acariciei e beijei. E enquanto eu acariciava a cara da Morte espelhada no rosto esquálido da minha amiga, eu chorava, além da dela, a minha própria morte, a de todos nós, a de cada um.

Quando o ar lhe faltou, um balão passou a lhe dar o oxigênio necessário. Daqui eu tentava reconstituir com a minha, a respiração dela, agora ritmada por uma batida que não era mais só sua. Como seria o ritmo de uma respiração num balão de oxigênio? eu me perguntava todas as noites. Seria grave ou aguda? Isso faria toda a diferença para alguém como ela, que cantava por destino. Como seria o ritmo dos seus pensamentos? Quantas horas duravam as vinte e quatro horas dos seus dias? O que se passa na cabeça de alguém que assiste a despedida lenta do seu próprio corpo? Que se passa na cabeça dela, meu deus?
Quem sabe um milagre, eu pensava. Mas os cinco anos de quimioterapia, internações, dores, quedas de cabelo, nos diziam que o milagre já era estarmos ali, juntas, de mãos dadas, distraindo a morte, tomando chá, ouvindo uma canção. Que seja dormindo, eu desejava. Mas foi sentada, numa manhã de segunda, hoje, mais precisamente. O ar lhe faltou e o balão não a encheu, como das outras vezes. Pediu pra sentar. Sentaram-na. Olhou para David, seu amor, e com a mesma elegância e serenidade de sempre lhe disse tchau. E é com a mesma elegância, talvez sem mesma serenidade, que eu tento lhe dizer tchau.

Da última vez que liguei, uns três dias antes dela partir, Dona Maria, sua mãe, me avisou que Rosa não poderia falar muito. Pedi para falar assim mesmo. Eu falaria, ela só ouviria. Pensei que seria bom encher seu silêncio de sons, ela que gostava tanto deles. Dona Maria passou o telefone para ela. Silêncio, um silêncio longo, como naquela canção de Odair José ("um longo silêncio entre nós, a tua presença calou minha voz... Tanta coisa eu tinha guardado pra lhe dizer, mas não disse nada..."). Mais silêncio.


Por um segundo fiquei desconcertada. "Diga alguma coisa, Ana, rápido", pensei. "Digo o quê para ela, meu deus?". Lembrei que se pudesse falar, ela perguntaria por coisas do mundo, da vida, dos amigos. Então, ainda desconcertada, eu lhe disse: "Lembra do filme que queríamos assistir juntas, Cinema, aspirinas e urubus? Ele foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro, sabia?". Ela disse: "É mesmo, Aninha? Não sabia, que legal...". Dei-lhe um beijo e desliguei. Chorava, me sentia uma idiota, impotente. "Isso é coisa que se diga a um amigo que está indo embora?". Mas essa foi a última coisa que disse antes que ela se fosse.

Hoje, enquanto olhava para o mar na praia do Buracão e me despedia dela, Bela, uma amiga que acolhia minha dor, me disse que não era bem assim, o filme foi um dos escolhidos para representar o Brasil, mas ainda não era um concorrente oficial ao Oscar. "Por enquanto é só uma indicação do Brasil, Ana", disse Bela. Olhamos uma para outra e rimos. Isso já não importa, pensamos. Sei que ela gostou de saber uma coisa bacana do mundo antes de ir embora. E isso é o que verdadeiramente importa.

Tchau, Rosa, meu amor.

Salvador, 09/10/2006


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6 comentários:

karina rabinovitz disse...

um absurdo esse texto Dumas!
de arrepiar.
e a relação com a morte... e o amor.
tão bonito!

Anônimo disse...

Ë, a Karina tem razão. Eu me emocionei duas vezes. E se ler duas vezes mais, me emocionarei de novo. É um texto belo de despedida. Belo.

dumas disse...

obrigada, e a loucura é q é tudo verdade, não é nem literatura, foi a experiência mais plena q já vivi...

temporada de patos disse...

Linda, você sabe, eu acho esse texto forte e muito bonito. Quando o leio, sinto-o também. Quero mais, mais. Beijocas!!

Ana disse...

Relato difícil,texto impressionantemente leve.

Talvez por estar vagando sem rumo pela rede em pleno carnaval, lembrei do "Bebê de tarlatana rosa", conto de João do Rio (certamente há outras pontes além da data, e sem dúvida têm a ver com qualidade).

Lamento pelo fato; regozijo pela verve.

Ana (ana2006bahia@gmail.com)

Rê Michelotti disse...

Um lindo texto de despedida. Falar da vida, em especial da morte com sua clareza e desprendimento é intenso... Intenso como todas as sensações que a morte nos causa, no entanto, ela existe e uma hora outra, ou ainda muitas vezes nos visita... Ela faz parte! Mas como você bem descreve, enquanto vamos a distraindo, a vida acontece...e como acontece! Parabéns...uma excelente postagem!