Mostrando postagens com marcador textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador textos. Mostrar todas as postagens

17/06/2010

quem é doido?

A pergunta que nos ronda é: o que é mesmo a loucura? Bispo do Rosário foi louco? James Brown foi louco? Estamira é louca? Nietzsche foi louco? Quando uma loucura é maldita? E quando considerá-la bendita?

Teria a loucura abençoado Oscar Niemeyer quando ele vislumbrou curvas em blocos retos de concreto armado? Quando Santos Dumont sonhou cortar os céus a bordo de um invento chamado avião ele estava louco?

Quando Galileu especulou que a Terra é que girava em torno do Sol, e não o contrário, chamaram-no de louco e quase o queimaram por isso. Quando Darwin ousou afirmar que éramos frutos de uma evolução natural e que os macacos eram nossos parentes, chamaram-no de louco. E quando Freud disse que existia uma área desconhecida, poderosa e incontrolável no aparelho psíquico, o inconsciente coletivo, também chamaram-no de louco.

Tempos depois, essas loucuras se tornariam patrimônios imateriais da humanidade. Então digam-me, o que mesmo é ser louco?

Em nome de todos esses loucos, benditas sejam algumas loucuras, tanto a dos célebres, como a dos milhares de anônimos que desfilam, como cartas de tarô, seus arquétipos pelo mundo. São os loucos sem nome próprio, aqueles que quando passam pelas ruas, mesmo que saibamos seus nomes de "normais", os chamamos apenas pelos nomes de doidos - Alzira Zarú, Zé Panela, Maria Banana, Zé Melado, Zé Baoca, Vai Cega!

13/06/2010

Tribais e miscigenados: a revanche



Desde os idos de 1300, muito antes das primeiras caravelas portuguesas aportarem por aqui, o nome Brasil já circulava como uma lendária ilha paradisíaca nos antigos mapas que circulavam pelo Velho Mundo. Séculos depois, quando a lendária ilha foi, enfim, encontrada, passamos a narrar esse encontro como uma “descoberta” portuguesa.

O que se narra então como uma “descoberta” é, na verdade, uma constatação - a da existência de um paraíso terrestre que, reza a lenda, remonta a essa “Ilha Brasil” apontado nos antigos mapas. O paraíso não só existia como viria mesmo a se chamar Brasil.  E o Novo Mundo descrito por Pero Vaz correspondia mesmo ao mito da “Ilha Brasil”: éramos índios, nus, guerreiros, inocentes, místicos, tementes, vivendo em sistema de tribos e, sobretudo, alheios às conquistas das civilizações pré-modernas.

Quando as primeiras caravelas baixaram vela por aqui, o Novo Mundo era, portanto, tribal. Isso até os portugueses trazerem, a bordo das suas embarcações, o esboço do que começaria a nos transformar em mais projeto de catequização cristã. E ainda que não falassem a mesma língua, índios e portugueses, desde os primeiros momentos desse encontro, a intenção dessa catequização foi verbalizada, ou melhor dizendo, encenada.

E é a encenação da primeira missa que formaliza essa intenção. Por não falarem mesmo a mesma língua, a imagem falou pelo verbo e ali, na primeira missa, se oficializou a passagem de uma história essencialmente tribal para um projeto de “civilização” ocidental, que mais tarde viria desembocar num país. Formalizado o encontro, o Novo Mundo jamais seria o mesmo. E é a força dessa imagem que Víctor Meirelles captou e imortalizou no quadro da “primeira missa”. Talvez por isso, o quadro de Meirelles, apesar de se referir à segunda e não à primeira missa, continue sendo até hoje o símbolo oficial do primeiro encontro entre o Velho e o Novo Mundo, entre o primitivo e a era moderna que se anunciava.

Essa volta ao passado serve para compreender duas características fundamentais na formação do povo brasileiro: a tribalização[1] e a miscigenação. Sobre a tribalização, já vimos que a chegada dos portugueses, mais do que um “descobrimento” propriamente dito, representa a passagem de uma maneira de viver essencialmente tribal para modelos sociais mais “civilizadas”, ocidentais. Esse espírito tribal, originalmente indígena, foi reforçado com a vinda dos africanos trazidos como escravos - e não menos tribais que os índios.

Quanto à miscigenação, como se já não bastasse o próprio encontro entre índios e portugueses, Lagos, a cidade portuária que serviu de base naval para os portugueses arquitetarem a expedição que aportou no Brasil com 1500 homens, era uma corte aberta e cosmopolita. Lá aportava povos do mundo inteiro: “Havia gente das Ilhas Canárias, caravaneiros do Saara, mercadores do Timbuctu (hoje Mali), monges de Jerusalém, navegadores venezianos, alemães e dinamarqueses, cartógrafos italianos e astrônomos judeus”[2]. Ainda que virtualmente, todas essas culturas desembarcaram aqui a bordo das caravelas portuguesas.

Hoje, a Modernidade (que ainda estava nos primórdios da sua configuração quando o Velho Mundo aqui aportou) cede passagem para uma nova era, intitulada por alguns estudiosos de Pós-Modernidade. A tribalização e a miscigenação normalmente são apontadas como características essenciais da contemporaneidade. Cinco séculos depois, parece até revanche que essas características, tão presentes na formação do povo brasileiro – e das quais, repito, nos envergonhamos durante tantas décadas – nos coloquem no contexto mundial como um país pós-moderno (o que não significa dizer um país do primeiro mundo).

Ps: Desencavei esse texto dez anos depois porque vou passar o mês de julho entre Cumuruxatiba e Prado, região do descobrimento do Brasil, trabalhando no projeto A cidade faz upgdrade.
--------------------------------------------------------------------------

[1] Ver Marcos Palacios, O Medo do Vazio: Comunicação, Socialidade e Novas Tribos (mimeo, Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia). Neste ensaio, Palacios, aponta para “a redescoberta, através da revolução eletrônica e informacional, de uma sensibilidade que Mc Luhan cunhou de tribal”. Ancorado no trabalho do sociólogo francês Michel Maffesoli em “O Tempo das Tribos”, Palacios defende a idéia de que “essas novas tribo não se restringem às ‘tribos eletrônicas’. Um afoxé na Bahia, uma escola de samba no Rio de Janeiro, uma tribo punk em Londres, poderia ser exemplo desse tipo de agrupamento por afinidades. Trata-se de um tribalismo que pode ser perfeitamente efêmero e que se organiza conforme as ocasiões que se apresentam. São agrupamentos que se esgotam na ação”.

[2] Revista Super Interessante, A Cruzada do Descobrimento, p. 45, fevereiro de 1998.

11/10/2009

o desconcerto da partida

Nos últimos dias já estava acostumada a ligar pra ela e ouvir pouco a sua voz - logo a voz, sua impressão digital nesse mundo. Até bem pouco tempo, não era assim. Eu ligava e ficava impressionada porque mesmo depois de uma cirurgia num hospital distante em Frankfurt, na Alemanha, sua voz soava forte, ligada no mundo. Era ela quem me dava força, queria saber do Brasil, de Salvador. Ela já não estava bem, mas queria saber se todos estavam bem, Marcelo, Andréia, Hans, Adriana, Paulinha, Vladi, Xanda, Beto, Débora, Goli, Pepito.

Há cerca de um mês fui vê-la, já não tão distante, aqui do lado, em Belo Horizonte. De perto pude perceber o quanto ela já estava distante, mais do que quando estava num hospital em Frankfurt. Ela já estava indo embora, mas não queria ir, embora já soubesse que teria quer ir. Ela e seu corpo eram só desacordo. Viver doía. Full time.

Lá em Belo Horizonte sentávamos no sofá da sala, eu, ela e Zélia, de mãos dadas, como três velhinhas, esperando a única e absoluta certeza que a vida nos reserva: a morte. Enquanto esperávamos, nos distraíamos e distraíamos a morte também – é justamente no intervalo dessa espera que a vida acontece. E tomamos vinho (eu e Zélia, ela não), chás, falamos da vida, de canções, filmes, trocamos confidências. E bebíamos mais chás e mais vinho.

Eu, Rosanna & Zélia. Éramos quatro mulheres. Sim, quatro, porque a Morte já estava ali entre a gente, elegante, gentil, paciente, esperando. Mas a Morte não deveria estar ali entre a gente, nós não a havíamos convidado. Pensei assim até perceber que, na verdade, foi ela, a Morte, quem nos convidou para aquele encontro. E era só enquanto Ela estivesse por ali, gentil, esperando, que haveria espaço para mais e mais sonhos: um novo disco, novas canções, um mergulho no mar e, quem sabe, uma vacina, a cura, a cura... Que mundo estranho esse, era a presença e não a ausência da Morte que ainda a mantinha entre nós.

No dia que eu vim embora, nos abraçamos. Nunca pensei um dia acariciar a cara viva da Morte. Mas acariciei e beijei. E enquanto eu acariciava a cara da Morte espelhada no rosto esquálido da minha amiga, eu chorava, além da dela, a minha própria morte, a de todos nós, a de cada um.

Quando o ar lhe faltou, um balão passou a lhe dar o oxigênio necessário. Daqui eu tentava reconstituir com a minha, a respiração dela, agora ritmada por uma batida que não era mais só sua. Como seria o ritmo de uma respiração num balão de oxigênio? eu me perguntava todas as noites. Seria grave ou aguda? Isso faria toda a diferença para alguém como ela, que cantava por destino. Como seria o ritmo dos seus pensamentos? Quantas horas duravam as vinte e quatro horas dos seus dias? O que se passa na cabeça de alguém que assiste a despedida lenta do seu próprio corpo? Que se passa na cabeça dela, meu deus?
Quem sabe um milagre, eu pensava. Mas os cinco anos de quimioterapia, internações, dores, quedas de cabelo, nos diziam que o milagre já era estarmos ali, juntas, de mãos dadas, distraindo a morte, tomando chá, ouvindo uma canção. Que seja dormindo, eu desejava. Mas foi sentada, numa manhã de segunda, hoje, mais precisamente. O ar lhe faltou e o balão não a encheu, como das outras vezes. Pediu pra sentar. Sentaram-na. Olhou para David, seu amor, e com a mesma elegância e serenidade de sempre lhe disse tchau. E é com a mesma elegância, talvez sem mesma serenidade, que eu tento lhe dizer tchau.

Da última vez que liguei, uns três dias antes dela partir, Dona Maria, sua mãe, me avisou que Rosa não poderia falar muito. Pedi para falar assim mesmo. Eu falaria, ela só ouviria. Pensei que seria bom encher seu silêncio de sons, ela que gostava tanto deles. Dona Maria passou o telefone para ela. Silêncio, um silêncio longo, como naquela canção de Odair José ("um longo silêncio entre nós, a tua presença calou minha voz... Tanta coisa eu tinha guardado pra lhe dizer, mas não disse nada..."). Mais silêncio.


Por um segundo fiquei desconcertada. "Diga alguma coisa, Ana, rápido", pensei. "Digo o quê para ela, meu deus?". Lembrei que se pudesse falar, ela perguntaria por coisas do mundo, da vida, dos amigos. Então, ainda desconcertada, eu lhe disse: "Lembra do filme que queríamos assistir juntas, Cinema, aspirinas e urubus? Ele foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro, sabia?". Ela disse: "É mesmo, Aninha? Não sabia, que legal...". Dei-lhe um beijo e desliguei. Chorava, me sentia uma idiota, impotente. "Isso é coisa que se diga a um amigo que está indo embora?". Mas essa foi a última coisa que disse antes que ela se fosse.

Hoje, enquanto olhava para o mar na praia do Buracão e me despedia dela, Bela, uma amiga que acolhia minha dor, me disse que não era bem assim, o filme foi um dos escolhidos para representar o Brasil, mas ainda não era um concorrente oficial ao Oscar. "Por enquanto é só uma indicação do Brasil, Ana", disse Bela. Olhamos uma para outra e rimos. Isso já não importa, pensamos. Sei que ela gostou de saber uma coisa bacana do mundo antes de ir embora. E isso é o que verdadeiramente importa.

Tchau, Rosa, meu amor.

Salvador, 09/10/2006


Voltar 

10/10/2009

raciocínio quebrado

Os pré-socráticos escreveram textos inteiros, lineares, com raciocínios sistematizados, mas o Tempo tratou de deletá-los. O que chegou até nós são "apenas" FRAGMENTOS, pedaços de raciocínios valiosos. Mas o século XXI, com sua lógica NÃO LINEAR, fragmentada, quebrada, não nos permite mais nos referirmos aos fragmentos como "apenas".

E eu, que nasci no século passado com meu raciocínio já QUEBRADO, quando ouço ou leio críticas aos pensamentos fragmentados (como se a razão só se expressasse em pensamentos inteiros e lineares), não consigo deixar de rir e pensar: ao criarmos fragmentos, poupamos o TEMPO do trabalho que os pré-socráticos lhes deu, pois foi preciso muito, muito, muito tempo para que suas obras inteiras se transformassem em pequenos pedaços. Os fragmentos-conceitos possuem o tamanho que precisam e nem sempre o pequeno é pequeno e o grande é grande.

É em consideração ao TEMPO, que tem muito o que fazer, o SÉCULO XXI registra sua MEMÓRIA em fragmentos, posts, scraps, torpedos, mensagens. E nenhum raciocínio, inteiro ou quebrado, vale mais do que o outro - o que vale é riqueza da MENSAGEM que ele veicula.


E o TEMPO, sempre ele, há de nos dar razão.

ps: para ler ao som de raciocínio quebrado, canção do rapper parteum.

17/07/2009

THE END

Não
havíamos
previsto:

o amor
prevê
imprevistos.


[ilustração otávio filho]

Voltar

12/07/2009

platônico

onde vc passa,
eu paro
e fico.

onde vc fica,
eu passo
e vou.

[ilustração otávio filho, remixada]

02/07/2009

RAZÃO E SONHO

Em 1619, numa noite de novembro, Descartes sonhou com um “método universal para encontrar a verdade”. Anotou os sonhos, pesquisou, duvidou, teve certeza e só então lançou sua sentença: Penso, logo existo. Num mundo medieval regido por leis divinas e métodos teológicos, o slogan criado pelo filósofo francês logo se transformaria em marco da era moderna, da era da Razão - assim em maiúsculo.

A estrutura do pensamento ocidental jamais seria a mesma depois do upgrade provocado por Descartes. Mas esse upgrade se deve mais à interpretação que o mundo fez do slogan cartesiano do que da própria vontade do filósofo. Foi desejo da (in)consciência coletiva transformar razão em sinônimo de ciência, certeza, progresso e escrevê-la com R maiúsculo.

Até aqui, essa história é bem conhecida. Mas o que pouco se diz sobre ela é que o método cartesiano nasceu a partir de uma série de três sonhos que Descartes teve naquela noite de novembro. Logo, o ponto principal de uma das obras inaugurais da era da Razão (Discurso sobre o método, 1637), apareceu para seu autor através de um canal da ordem da irracionalidade, do inconsciente coletivo: o sonho.

Por ironia do destino, a Razão moderna deve a Descartes o fato de ele ter literalmente acreditado nos seus sonhos. E pra nossa sorte, quando ele sonhou com as bases do seu método racionalista, o mundo do conhecimento ainda não vivia sob o absolutismo da Razão.

Às vésperas de fecharmos a primeira década do século 21, os sistemas do inconsciente e da consciência ainda são tratados em regime de oposição, como se digladiassem entre si, quando na verdade, são sistemas complementares. Isto Descartes já sabia - e não é à toa que foi grande no que fez.